O PENTATEUCO ESPÍRITA
André Soares Abdala Lacerda
O Pentateuco[1] Espirita ou os cinco livros fundamentais que compõem a Codificação do Espiritismo é formado pelo Livros dos Espíritos, publicado em abril de 1857, Livros dos Médios, publicado em janeiro de 1861, O Evangelho Segundo o Espiritismo, publicado em abril de 1864, O Céu e o Inferno, publicado em agosto de 1865, e A gênese, publicado em janeiro de 1868.
[1] Pentateuco é uma expressão grega que significa “cinco rolos” ou livros. Compreende, na Bíblia Sagrada, os cinco primeiros livros do Antigo Testamento: Génesis (origens), Êxodo (do Egito), Levítico (dos levitas, sacerdotes), Números (recenseamentos dos hebreus) e Deuteronómio (segunda lei).
O Livro dos Espíritos[1], o primeiro, reúne os ensinos dos Espíritos Superiores através de médiuns de várias partes do Mundo. Ele é o marco inicial de uma Doutrina que trouxe uma profunda repercussão no pensamento e na visão de vida de considerável parcela da Humanidade. Estruturado em quatro partes e contendo 1.019 perguntas formuladas pelo Codificador, aborda os ensinamentos espíritas, de uma forma lógica e racional, sob os aspectos científico, filosófico e religioso.
O Livro dos Médiuns reúne o ensino especial dos Espíritos sobre a teoria de todos os gêneros de manifestações, os meios de comunicação com o mundo invisível, o desenvolvimento da mediunidade, as dificuldades e os tropeços que se podem encontrar na prática do Espiritismo.
O Evangelho Segundo o Espiritismo traz o ensino moral do Cristo Jesus para as pessoas de qualquer crença. Desenvolvido pelos Espíritos de Luz em comunicações mediúnicas recolhidas, organizadas, comentadas e trazidas a público pelo Codificador Allan Kardec.
O Céu e o Inferno, tem por desígnio explicar a Justiça de Deus à luz da Doutrina Espírita. Objetiva demonstrar a imortalidade do Espírito e a condição na qual estará no Mundo Espiritual, como consequência de seus próprios atos. Estabelece um exame comparado das doutrinas religiosas sobre a vida após a morte, mostrando fatos como a morte de crianças, seres nascidos com deformações, acidentes coletivos e uma gama de problemas que só a imortalidade da alma e a reencarnação explicam satisfatoriamente. Kardec procura elucidar temas como: anjos, céu, demônios, inferno, penas eternas, purgatório, temor da morte, a proibição mosaica sobre a evocação dos mortos.
A Gênese é um livro que oportuniza uma imersão em temas de interesse universal, abordados de forma lógica, racional e reveladora, tais como a origem do planeta Terra, a questão dos milagres, a natureza dos fluidos e os fatos extraordinários contidos no Evangelho, os sinais dos tempos e a geração nova, que marcará um novo tempo na Terra com a prática da justiça, da paz e da fraternidade.
Por fim, ainda temos mais dois livros, que apesar de formalmente não comporem o Pentateuco Espírita, são de extrema relevância que o Livro O que é o Espiritismo e o Livro Obras Póstumas.
O Livro Obras Póstumas, publicada após a desencarnação de Allan Kardec, aborda assuntos como caráter e consequências religiosas das manifestações dos Espíritos; as cinco alternativas da Humanidade; questões e problemas; as expiações coletivas; liberdade, igualdade, fraternidade; música espírita; a morte espiritual; a vida futura. O Livro O Que É O Espiritismo, intui o leitor a natureza do Espiritismo e a definição de seus pontos fundamentais.
Em minha singeleza, sempre sugiro iniciar pela leitura do livro O Evangelho Segundo Espiritismo, passando para o Livro O Que É O Espiritismo, sempre usando o Livro Dos Espíritos para consulta e aprimoramento nas referencias daquelas obras quando feitas.
O Livros dos Espíritos é dividida em quatro partes sendo: I – Parte Primeira, Das Causas Primarias, o qual é complementado pelo Livros da A Gênese; II – Parte Segunda, Do Mundo Espírita ou Mundo dos Espíritos; o qual é complementado pelo Livro dos Médios; III – Parte Terceira, Das Leis Morais, o qual é complementado pelo O Evangelho Segundo o Espiritismo; e IV – Parte Quarta, Das Penas e Consolações, o qual é complementado pelo livro O Céu E O Inferno. Assim, se percebe a completude e a união que se torna um só da doutrina espírita.
A parte introdutória do livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, nos dá informações muito pertinente na compreensão da codificação espirita. Inicia nos preceituando que o livro se divide e cinco partes das matérias contidas no Evangelhos, sendo os atos comuns da vida de Cristo, os milagres, as predições, as palavras que foram tomadas pela Igreja para fundamentos de seus dogmas e o ensino moral. Também nos relembra que as quatro primeiras ainda são objeto de controversas, mantendo-se apenas a última, o ensino moral, imaculado de controversas.
Podemos completar o raciocino com a citação contida no Livro A Gênese, onde nos divulga que “Sendo Deus o eixo de todas as crenças religiosas, o objetivo de todos os cultos, o caráter de todas as religiões está conforme a ideias que elas dão de Deus”[2], ou seja, cada religião cria seus dogmas com base na ideia que tem de Deus, acarretando controversas e desavenças, sendo somente a caridade, representada aqui pelo ensinamento moral, que não dá margem a controversas.
Indesejado em inserir-se em impolidez pelo comparativo, mas podemos referenciar a origem atribuída ao termo “Extra ecclesiam nulta salus” (Fora da Igreja não há salvação). No século III o batismo cristão somente era valido se for ministrado por um sacerdote verdadeiro, que em tudo concorda com a igreja oficial, sendo o entendimento enraizado por Cipriano, Bispo de Cartago. Em respondo, a doutrina espírita ensina que “Fora da Caridade não há salvação”. O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capitulo XV, nos traz tal lição, onde preceitua que toda a moral de Jesus se resume na caridade e na humildade. Vejamos:
Enquanto a máxima — Fora da caridade não há salvação — assenta num princípio universal e abre a todos os filhos de Deus acesso à suprema felicidade, o dogma — Fora da Igreja não há salvação — se estriba, não na fé fundamental em Deus e na imortalidade da alma, fé comum a todas as religiões, porém, numa fé especial, em dogmas particulares; é exclusivo e absoluto. Longe de unir os filhos de Deus, separa-os; em vez de incitá-los ao amor de seus irmãos, alimenta e sanciona a irritação entre sectários dos diferentes cultos que reciprocamente se consideram malditos na eternidade, embora sejam parentes e amigos esses sectários. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, no capitulo XV, item 08)
Ainda, cabe elucidar o método científico utilizado por Allan Kardec na codificação espírita.
No tópico da Introdução do Livro O Evangelho Segundo o Espiritismo, no item II – A Autoridade da Doutrina Espírita, Kardec se preocupa que a doutrina espírita não seja puramente humana ou que possa ser questionada sua não universalidade, pois se fosse de concepção puramente humana não ofereceria senão as luzes daquele que a houvesse concebido.
No entendimento de que, in verbis: “Quis Deus que a nova revelação chegasse aos homens por mais rápido caminho e mais autêntico. Incumbiu, pois, os Espíritos de leva-la de um polo a outro, manifestando-se por toda parte, sem conferir a ninguém o privilégio de lhe ouvir a palavra. Um homem pode ser ludibriado, pode enganar-se a si mesmo; já não será assim, quando milhões de criaturas veem e ouvem a mesma coisa. Constitui isso uma garantia para cada um e para todos. Ademais, pode fazer-se que desapareça um homem; mas não se pode fazer desaparecer as coletividades.”[3]
É nessa universalidade do ensino dos espíritos que reside a força do espiritismo, pois a torna irrefutável de divergências e singularidades de interpretações de grupos isolados.
Aliado a universalidade temos o crivo da moralidade, mesmo que universal, mas se não pairar em consonância com a moral exemplificada por Cristo, não provem de Deus.
Daí resulta que, com relação a tudo o que seja fora do âmbito do ensino exclusivamente moral, as revelações que cada um possa receber terão caráter individual, sem cunho de autenticidade, que deve ser consideradas opinião pessoais de tal ou qual Espírito e que imprudente fora aceita-las e propaga-las levianamente como verdade absolutas. [4]
Allan Kardec, cujo nome de nascimento foi Hippolyte Léon Denizard Rivail, nascido em Lyon, na França, a 3 de outubro de 1804, e desencarnou em Paris, no dia 31 de março de 1869. Descendente de família de orientação católica, filho de Jean-Baptiste Antoine Rivail e Jeanne Louise Duhamel, mas educado com base em princípios protestantes, pode consolidar um caráter nobre, fundamentado na ética e moral, a conferir-lhe a identificação reconhecida de verdadeiro homem de bem.
Kardec estudou com o renomado educador suíço Johann Heinrich Pestallozzi (1746-1827) em Yverdon, tornando-se seu discípulo e propagador do método educacional, que influenciou a reforma do ensino na França e na Alemanha. Reconhecido educador e mestre, poliglota e tradutor, foi um homem cujo perfil caracterizou-se pela disciplina, esforço e perseverança, pois autor de diversas obras didáticas na área das letras e ciências, ocupou-se sempre na busca do aprendizado e do ensino, auxiliando com denodo a todos que palmilhassem seu caminho e a quem pudesse compartilhar sua experiência.
Podemos ver que o codificado não poderia ser outro senão um homem da ciência, o qual deu comprovação cientifica através do método empírico[5].
Mas quem foram os espíritos que na universalidade do planeta revelaram a doutrina espírita? De certo os mais apurados.
No Evangelho Segundo O Espiritismo, ainda na parte introdutória, nos é referenciado Sócrates e Platão como uns dos precursores da ideia cristã e do espiritismo.
Nos livros aqui mencionado, sempre há menção aos espíritos de luz, espíritos da verdade, enfim, a Federação Espírita do Paraná, no ano de 2002, lançou o livro Os Expositores Da Codificação Espírita[6], obra decorrente da pesquisa que expõe quem foram os espíritos reveladores da doutrina espírita.
O prologo do livro nos traz a intenção da obra. Vejamos:
Quem são, afinal, os Espíritos que assinam as mensagens da Codificação? Em Prolegômenos, na obra basilar O Livro dos Espíritos, encontram-se os nomes de São João Evangelista, Santo Agostinho, São Vicente de Paulo, São Luís, O Espírito de Verdade, Sócrates, Platão, Fénelon, Franklin, Swedenborg, entre outros.
Em O Evangelho segundo o Espiritismo desfila mais de uma dezena de nomes de Espíritos, conhecidos uns, quase desconhecidos outros, entre eles os de Delphine de Girardin, Hahnemann, Henri Heine, Lacordaire, Lamennais, Morlot, Pascal, Vianney.
A abordagem sobre alguns destes mentores de luz será matéria de outro artigo, pois aqui o intuito era dar um panorama geral da codificação espírita, deixando a cargo do leitor o desejo de aprofundar-se na leitura.
[1] A descrição das obras fundamentais tem por fonte a descrição das Obras de Allan Kardec, da Federação Espírita Brasileira – FEB, in https://www.febnet.org.br/blog/geral/divulgacao/downloads-divulgacao/obras-basicas/
[2] Kardec, Allan. A Gênese. Editora Ide. p. 15.
[3] Kardec, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. Parte Introdutório, parte II.
[4] Op. Cit.
[5] Nos referimos ao método que resulta da observação e não de teorias já pré-concebidas.
[6] Os Expoentes da Codificação Espírita. Editora FEP. 2002.